quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Resenha do Capitulo “ESPAÇO Casa, rua e outro mundo: O caso do Brasil - ”Roberto Damatta

pôr do sol em FARROUPILHA-RS
🌔⇶ Sociologia - Antropologia Clássica
  Resenha do Capitulo  “ESPAÇO
  Casa, rua e outro mundo: O caso do Brasil”
  Roberto Damatta  

A partir da versão preliminar publicada na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 19, 1984, Roberto Damatta publicou esta quinta edição(treze anos depois). Começa o autor num paralelo ao ar onde “se possa ‘ver’ e ‘sentir’ o espaço torna- se necessário situar-se”. A antropologia social “viaja” nos sistemas sociais diferentes procurando entender as variações e em muitos casos com problemas.

Citou um problema clássico “No Cairo, uma vez, fiquei perdido, pois as ruas não seguiam o mesmo padrão a que estamos habituados no Ocidente” entre outros tantos exemplos  descoberta em Tóquio, citou ainda outras questões brasileiras para poder entender a sociedade e suas relações sociais e de valores, inclusive econômicos e religiosos.

Cita ainda como é descrito em alguns lugares do Brasil endereços, citando família referencia ou algum outro detalhe social. Parafraseia Daniel P. Kidder, que residiu no Rio de Janeiro entre 1837 – 1840 comentando surpreendido os estranhos nomes dadas as ruas.

Damatta relata ainda como eram classificadas e orientadas por pontos cardeais (norte/sul; leste/oeste) e de um sistema numeral nos logradouros, isso nos Estados Unidos, do contrario “por qualquer acidente geográfico, ou , ainda, alguma característica social e/ou politica”. Nos Estados Unidos é mais difícil, por exemplo um brasileiro se localizar na cidades e estados pois lá é “mais individualizado, quantificado e impessoalizado”, mas isso não é um privilegio ‘de forasteiros’, é normal o uso por velhos habitantes de mapas.

Já nas cidades brasileiras a demarcação espacial (e social) se faz sempre no sentido de uma graduação ou hierarquia entre centro e periferia dentro e fora, voltando para os Estados Unidos a relação “centro da cidade”.

Nada é tão simples, há outras formas de ‘divisão’ de terras, onde ‘alguém’ estabelece fronteiras, “separando um pedaço de chão do outro”, nesta forma de propriedade privada, segundo o autor “tópico que faria o deleite dos evolucionistas antigos e contemporâneos, mas posso dizer que tanto o tempo (ou o temporal idade) quanto o espaço são invenções sociais.”

O autor cita ser bem complexa a questão do espaço, cita a obra ‘A montanha mágica’ de Thomas Mann em sua “reflexão detida e justa do tempo(e do espaço) como categorias básicas do espírito humano.”

“O fato é que tempo e espaço constroem e, ao mesmo tempo, são construídos pela sociedade dos homens.” Em especial o tempo que, “confundindo a nossa sensibilidade” em uma análise elaborada e sociológica. Esta construção consta em todos os sistemas sociais, chegam a se confundir em algumas sociedades. Cita o autor, utilizando de publicação de Evans-Pritchard, 1978, um grupo tribal do Sudão diferenciado na forma de contar os anos e o espaço.

Cita ainda Damatta outro grupo tribal, este do Brasil Central, que ele mesmo estudou e pesquisou. Exemplo como a referência de tempo que alguns grupos tribais dão, referenciando o passado como “isso aconteceu no tempo em que meu Geti(avô) era moço...”

Ao tecer explicações sobre este grupo tribal “nuer” e seus rituais compara aos traços puritanos(ou protestantes) que “adotaram integralmente o capitalismo com sua lógica cultural”, de formas únicas e oficiais onde “o patrão(que o compra) e pelo operário(que o vende). Damatta parafraseia Thompson, 1965, onde tempo acaba tendo “uma forma qualificável de ‘coisa’ social ou bem de consumo que, nestas civilizações, pode ser sempre e a todo momento comprado e vendido.” Continuando, segundo Thompson “as concepções de tempo eram diferenciadas e como tempo era medido por preces ou por atos naturais.”

O autor utiliza de estudos de Lívia Neves de Holanda Barbosa, segundo ela, no caso brasileiro os sábados e domingos são vistos como para juntar às famílias, enquanto que os ‘dias comuns da semana’ marcados pelo trabalho, mais ao público feminino.

Cita ainda um diferencial entre fatos de nossas vidas, como aquela prova final de português ao primeiro beijo ou da primeira dança, um nem queremos lembrar, outro eternizar. Pode-se entender que há “um sistema de lembranças diferentes.” Neste aspecto pode-se classificar como categorias sociológicas o que inventa o tempo e o espaço, em destaque as que são constantemente inventadas pela sociedade.

Há “coisas” onde “as unidades de medidas são emocionais”, cita o autor: filme, corrida de cem metros rasos, em uma peça de teatro, deixa de lado medidas universais como horas ou minutos para focar o ‘momento da emoção’ no momento final.

Damatta relembra seu texto de 1973 “Foi-se o bom tempo em que tudo transcorria sem conflitos e sem humanidade...” relacionado a texto de Edgar Allan Poe, 1839, esse relata que a vida da sua história ironicamente uma confusão.

Roberto Damatta cita ainda, evoluindo o assunto mesmo que a grande maioria das coisas são feitas para uso individual: “cinema e o teatro, avião e locais de refeições”. Mas muitos outros momentos são em duplas ou no coletivo que se manifestam “torcida, partido, público, multidão.” Há processos históricos sejam inovadores, duradouras e importantes a partir de grupos sociais.

A passagem de um grupo social para outro onde o tempo ocorre de forma concreta “e a transformação do espaço como elemento socialmente importante.”

Na modernidade onde o individualismo impera, e a sociedade fica em segundo, terceiro, quinto, décimo plano... o problema estaria no coletivo. Em contrapartida em sociedades tribais, tradicionais onde o coletivo supera o individualismo.

“Não é preciso especular muito para descobrir que temos espaços concebidos como eternos e transitórios, legais e mágicos, individualizados e coletivos.” Damatta cita também a questão política na questão de espaço. Cita ainda ele Durkheim onde a sociedade surgio antes de nós e continuará muito depois. Há uma relação entre o líder e a massa e espaços eternos como igrejas, palácios, mercados, quartéis de certa forma “num sistema fixo de valores e poder.”

Cita ainda as praças onde se encontram normalmente o palácio do governo e a igreja matriz representa uma ‘sala de visitas coletivas’ ‘teoricamente do povo’. Damatta cita ainda em seu texto, parafraseando Max Weber de colonizadores destes espaços e territórios raramente na “decorrência direta de trocas comerciais, como foi o caso de muitas cidades da Europa Ocidental.” Damatta faz comparativo com várias cidades entre elas as brasileiras, norte-americanas e as europeias, analisando algumas diferenças na estrutura espacial e comercial.

O autor da obra menciona ainda as “zonas”, “brejos”, “mangues” e “alagados” onde não são marcados pela eternidade, mas sim problemáticos e transitórios, periféricos, escondidos das partes mais nobres. Neste aspecto enfatiza que os habitantes destes locais com menos infraestrutura tem um diferencial se “entrevistarmos um brasileiro comum na casa, ele pode falar” certas coisas em casa, mas se entrevista-lo na rua são outras coisas que falaria.

O local define muito a forma de comportamento, a mesma pessoa pode se manifestar de formas muito variadas conforme o espaço(local) que está no momento que expressa seus discursos. Cita ainda, fazendo um relato do ditado popular “Faça como eu digo, mas não como eu faço.” Volta a citar Weber “na volta da sociedade para o capitalismo” houve a estabilização de uma ética. Damatta procura ampliar esta ética para outros campos, não a resumindo ao econômico.

Roberto Damatta conclui este raciocínio afirmando que há “muitos brasileiros que falam uma mesma coisa em todos os espaços sociais”, porém é demarcado pelo local a forma de agir. Afirma ainda que há certa parcialidade nas atitudes, citando outro dito no Brasil “tudo tem um outro lado”. Cita ainda o entendimento das classes “inferiores” serem baseadas no entendimento familiar, enquanto que  as leis “são os pontos focais e dominantes.”

Por outro lado, continua, o espaço casa e rua figuram diferentes atitudes, exemplificando que não se pode trocar de roupas na sala de jantar, mas que há definições onde cada coisa deve ser desenvolvida. Utiliza da publicação de John Loccock que releva o espanto de todos que visitaram o Brasil(1808 e 1818). Loccock analisou até a forma de sentar à mesa, onde mulheres de um lado e homens de  outro.

Voltando no passado com Saint-Hilaire, que nos visitou em 1816 e 1822, este cita detalhes da sala, onde as visitas ficam, fazem suas refeições, mas não conhecem o resto da casa.

Não dá para transformar a casa na rua e vice-versa, e o “sentir-se em casa” é algo muito agradável. Por outro lado o “cada um está por si” apresenta o individualismo e os direitos individuais negativos, isso seria “na rua”, pois a casa não admite contradições.

Damatta menciona que estudar a casa assemelha-se a estudar as ruas de uma cidade. Cita ainda vários autores de séculos passados e seus relatos sobre as ruas do Rio e as questões de classes sociais. Comenta ainda que essa realidade não seria muito diferente, onde há medo de ser assaltado, confundido com indigente e outros problemas nas ruas, continua durante boa parte do texto com muitos ditos populares.

O autor volta a salientar que o individualismo é a marca brasileira, e o povo, ou ser visto como “zé povinho” é algo que ninguém quer. Sendo que o diferencial pregado durante todo o texto fica entre rua, casa e “outro mundo”, onde sempre tempo o lado ‘oficial’ e o popular.

“O sistema sempre opera com a casa, a rua e o outro mundo como espaços sociais e princípios ordenadores diferenciados mas complementares da vida, os rituais serviriam como mecanismo visando à unificação geral do sistema e sempre teriam um caráter inclusivo.”

 

Podemos comparar com as atividades constantes e exaustivas da atualidade, onde se escuta o noticiário na TV, comentando algo que se passou no dia anterior no trabalho e na universidade, mantem-se contatos por redes sociais, fazendo ligações telefônicas para outros Estados(e até países) quase que simultaneamente.

Pode-se levar em conta o tempo(anos de vida), ou os momentos das refeições, dormir, reproduzir-se. Com pouca idade quase não se manifesta em casa, com o decorrer deste tempo de vida vai criando seus critérios particulares, e mais adiante a optar por outras formas de se rebelar(ou não) contra algumas coisas, seja política, religiosa, esportiva.

Damatta faz uma projeção no sentido a fazer-se compreender no sentido mais social, onde do mínimo dos mínimos de compreensão, vai aperfeiçoando seu raciocínio no campo sociológico, introduzindo as famílias e as unidades sociais como associações, partido deste ritual, a rua e o todo.

Podemos usar aqui a famosa parábola bíblica do filho pródigo, que tinha tudo em casa, desgostoso e nem imaginando a aventura que iria se meter “foi ao mundo”, após passar muita necessidade voltou à casa paterna. Com isso podemos remeter o estudo de Damatta como um comparativo interessante e detalhado de espaço e tempo, e os detalhes importantes que pode ser analisados sociologicamente.

 
 

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